segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A COSMOVISÃO CRISTÃ E A IGREJA



42  E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
43  Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.
44  Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.
45  Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.
46  Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,
47  louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2.42-47).

Introdução

A melhor resposta à cosmovisão secular reinante é o Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. E o Senhor Jesus, antes de ser elevado aos céus, disse aos seus discípulos:

19  Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
20  ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mt 28.19-20).

Portanto, a tarefa de disseminar o Evangelho a este mundo perdido foi dada à Igreja e ela não pode se esquivar desta responsabilidade. Quando a Igreja cumpre a sua função de evangelizadora, ela está expondo ao mundo a sua cosmovisão bíblica e apresentando a salvação sob a ótica de quem compreende o mundo debaixo do governo de Deus.
Ao disseminar a mensagem de salvação, firmada em uma cosmovisão centrada em Deus e não no homem, a Igreja desempenha o papel de nutrir as pessoas famintas da verdade, ao mesmo tempo em que difunde e expande o seu modo de compreender o mundo. A Igreja é munida de grande capacidade de influência neste mundo e ela deve usar esta capacidade na difusão do Evangelho. Infelizmente, temos visto também que a Igreja possui uma enorme tendência de ser influenciada pelo mundo. Nesta batalha ela não pode ceder, não pode aceitar qualquer derrota, antes, deve levantar a sua bandeira, a bandeira de sua cosmovisão e avançar com muita ousadia e coragem. Na lição de hoje estudaremos algumas das funções que devem ser exercidas pela Igreja neste mundo.

01 – A FUNÇÃO EDUCATIVA DA IGREJA

Jesus Cristo designou à Sua Igreja uma dupla tarefa: a de proclamar o seu Evangelho e a de ensinar a verdade:

15  E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura (Mc 16.15).
19  Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
20  ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mt 28.19-20).

Esses dois aspectos da tarefa designada à Igreja são conhecidos como evangelização e discipulado e estes dois textos são os referenciais para o desenvolvimento da missão da Igreja neste mundo.
Marcos destaca a função proclamadora da Igreja e Mateus a sua função ensinadora. Mas estes dois lados da missão da Igreja não devem ser considerados opostos entre si, mas sim complementares um do outro, pois são dois aspectos da mesma tarefa de construir e disseminar uma visão de mundo com base no propósito redentivo de Deus. Portanto, evangelização e discipulado trabalham aspectos diferentes na vida das pessoas.

A – A função educativa da evangelização

A evangelização é a apresentação de uma mensagem que exige ruptura e mudança. Ruptura com os maus costumes, com os ídolos, com os prazeres deste mundo, com as concupiscência da carne e mudança, transformação de vida. É a mensagem que vai impactar a vida de seus ouvintes, que vai chocar violentamente a vida alcançada pela mensagem transformadora do Evangelho.
Os resultados deste impacto são uma profunda transformação de vida, tanto interna, com uma mudança de visão de mundo, deixando para trás a visão egocêntrica para abraçar uma cosmovisão teocêntrica, como externa, com mudança nos rumos da vida, deixando de caminhar no espaçoso caminho da perdição para andar no caminho estreito da salvação. Isso é conhecido como conversão:

17  E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas (2 Co 5.17).

Podemos citar os tessalonicenses como exemplo desta transformação de vida que o Evangelho provoca:

8  Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de acrescentar coisa alguma;
9  pois eles mesmos, no tocante a nós, proclamam que repercussão teve o nosso ingresso no vosso meio, e como, deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro
10  e para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura (1 Ts 1.8-10).

Este texto mostra uma profunda mudança de visão de mundo egocêntrica, para uma radical conversão à visão que reconhece a centralidade de Deus e tudo ganha um novo significado. Outro exemplo é a pregação de Pedro logo após o Pentecostes. Após ouvir o sermão as vidas dos que estavam lá foram impactadas pelo Evangelho:

37  Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos (At 2.37)?

Este é o poder do Evangelho. É a espada de dois gumes que corta de todos os lados, que penetra no mais íntimo do ser humano, que arrebenta as mais densas muralhas. E aos corações sensibilizados pelo poder da Palavra de Deus, Pedro não poderia dar melhor resposta:

38  Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo (At 2.38).

Quando Pedro lhes anuncia arrependimento, está exigindo deles uma mudança radical na maneira de pensar e agir. Eles não poderiam mais ser as mesmas pessoas depois de alcançados por uma Palavra tão poderosa. E esta também era a exigência básica da mensagem proclamada por João Batista:

1  Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia:
2  Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus (Mt 3.1-2).

E do mesmo modo exigia a mensagem proclamada por Jesus:

14  Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus,
15  dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho (Mc 1.14-15).

E esta é a mensagem primordial que a Igreja vem anunciando desde as primeiras épocas até aos dias de hoje. E quando a Igreja prega o Evangelho, ela propõe aos seus ouvintes que mudem radicalmente a sua visão de mundo e adquirem uma cosmovisão que seja autenticada pelas Escrituras Sagradas.

B – A função educativa do discipulado

O discipulado é o complemento da evangelização, pois ele tem a função de dar continuidade à mudança de mente promovida pela conversão. O efeito da evangelização, o arrependimento, é instantâneo, mas o discipulado ocorre por um período mais longo e pode chegar até ao fim dos nossos dias.
A evangelização desperta o coração para a necessidade de mudança, e o discipulado mostra o passo a passo dessa transformação. Ele é a orientação das atitudes que precisam ser mudadas, das coisas que precisam ser evitadas e da forma de vida que precisa ser implantada em nosso viver.
E tudo isso ocorre, unicamente, com o estudo da Palavra de Deus. Até a sua conversão o indivíduo tem aderido aos ensinamentos mundanos e através do que ele tem ouvido das pessoas tem formado a sua visão de mundo, sendo ela uma visão totalmente distorcida do Evangelho. Mas agora, ao aderir uma nova cosmovisão, ele precisa implodir sua antiga visão e solidificar sua nova visão de mundo, e para que não sofra distorções ela precisa ser solidificada através do estudo da Palavra de Deus. Isto é ensinar. Isto é discipular.
Podemos citar o exemplo da Igreja de Corinto. Ela foi evangelizada e se arrependeu, ou seja, se converteram ao Evangelho. Mas parece que muitos daquela Igreja não solidificaram sua fé nas Escrituras Sagradas, pois, não muito tempo depois da formação daquela Igreja foi necessário Paulo escrever duas cartas exortando aquela Igreja a uma experiência nova de arrependimento:

8  Porquanto, ainda que vos tenha contristado com a carta, não me arrependo; embora já me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve tempo),
9  agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis.
10  Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte (2 Co 7.8-10).

A intenção de Paulo era que os crentes de Corinto tivessem uma maior mudança de mente. E ele mesmo nos exorta a uma continuada renovação da mente, à medida que vamos tomando consciência das verdades bíblicas:

2  E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2).

O discipulado é um processo educativo de consolidação da cosmovisão cristã. Ele deve nos conduzir a um processo de santificação e de preparação para fazermos o que fizeram conosco: pregar o Evangelho para assim ganharmos novos discípulos..
A Igreja tem um importante papel na sociedade que foi dado pelo próprio Deus, o qual deseja que sejamos sal e luz neste mundo. É muito triste constatar que ela não tem cumprido seu papel de modo relevante. Muitos de nós temos nos acomodado e vivido como Igreja morna, que não faz diferença na sociedade. Muitas vezes sequer somos notados como Igreja de Cristo. Ela tem negligenciado a sua função educativa da evangelização e do discipulado.

02 – A FUNÇÃO COMUNITÁRIA DA IGREJA

Toda cosmovisão, para se manter viva e se expandir, precisa de um ambiente onde a pessoa encontre liberdade e incentivo para que sua maneira de pensar seja expressa, vivida e compartilhada. E a igreja é o espaço de comunhão que deve desenvolver um papel muito importante no fortalecimento e consolidação da cosmovisão cristã.

A – A força interna da comunidade cristã

A Igreja é um dos ambientes mais favoráveis ao fortalecimento e consolidação da nossa fé e de nossa visão de mundo. Por isso que o autor de Hebreus adverte-nos a não deixarmos de ir à Igreja:

24  Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras.
25  Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima (Hb 10.24-25).

Quanto mais forte for a nossa comunhão e nosso entrosamento com a Igreja, quanto mais intensos forem os laços afetivos com ela, maior será o enraizamento das crenças fundamentais que norteiam nossas preferências e escolhas. A vida na Igreja gera um ambiente em que nossa fé pode ser vivida, aceita e incentivada porque ali existe uma estrutura plausível para a cosmovisão cristã. É o que vemos na Igreja primitiva:

42  E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
43  Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.
44  Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum (At 2.42-44).
32  Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum (At 4.32).

A comunhão individual é o berço para a consolidação da cosmovisão cristã após a conversão, pois devemos gastar muito mais tempo com nossa comunhão pessoal com Deus, através da oração e do estudo da Palavra de Deus do que passamos na Igreja. Por isso a família deve ocupar o lugar mais plausível, antes da Igreja, de consolidação da nossa fé. Mas nem sempre a família tem a estrutura favorável, principalmente se nem todos compartilham da mesma visão de mundo. Quando isso ocorre devemos permitir que a Igreja complemente esta estrutura, tronando-a nosso núcleo familiar.
A Igreja tem sua responsabilidade quanto à família. Ela deve incentivar a construção de relacionamentos conjugais fortes, assentes no respeito mútuo, no desenvolvimento de laços de amor e no ensino de uma paternidade responsável. Ela deve ser encorajadora de uma geração que determina o futuro com solidez, integridade e valor.
A família cristã tem a obrigação de participar da comunhão frequente da Igreja. Quando uma família se ausenta do convívio comunitário da Igreja, ela está perdendo a oportunidade de estabelecer contato com a estrutura mais plausível para lhe dar força aos seus valores cristãos. A força da tradição familiar sozinha não será capaz de oferecer a estrutura de apoio para o enfrentamento da cosmovisão secular majoritária em nossos dias.
A família tem sido a estrutura que mais tem sofrido ataques dos inimigos da Igreja. Ela tem sido nocauteada pelas visões de mundo anticristãs. Isso deve levar as famílias da Igreja, mais do que nunca, a se unirem para a luta contra os padrões deste mundo, forjando em sua unidade comunitária uma fortaleza, e, principalmente, devem andar de modo condizente com a fé cristã.

B – A força externa da comunidade cristã

A Igreja tem um forte poder de influenciar as pessoas. Infelizmente ela tem se deixado influenciar e permitido a entrada de muita influência mundana nos últimos tempos, mas isso não elimina o seu prestígio e nem o seu predomínio. O apelo à atenção do mundo pela coletividade cristã é um lado muito forte da Igreja. É certo que as pessoas mundanas pouco se importam com a Igreja, mas quando ela se destaca pela sua força eles começam a percebê-la.
A Igreja primitiva é um exemplo dessa força. Em Jerusalém, nos primeiros dias da Igreja, o grande número de convertidos e a sua unidade na comunhão, logo chamaram a atenção do povo e isso causou um grande apreço do povo pela Igreja:

46  Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,
47  louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos (At 2.46-47).

Isso também chamou a atenção dos líderes judaicos, que logo perceberam a influência do cristianismo pela sua unidade e coletividade. E então, como fizeram com Jesus Cristo, o fundador da Igreja, prosseguiram em sua oposição e perseguição, agora contra a Igreja, na tentativa de barrar o seu crescimento.

15  E, mandando-os sair do Sinédrio, consultavam entre si,
16  dizendo: Que faremos com estes homens? Pois, na verdade, é manifesto a todos os habitantes de Jerusalém que um sinal notório foi feito por eles, e não o podemos negar;
17  mas, para que não haja maior divulgação entre o povo, ameacemo-los para não mais falarem neste nome a quem quer que seja.
18  Chamando-os, ordenaram-lhes que absolutamente não falassem, nem ensinassem em o nome de Jesus.
19  Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus;
20  pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.
21  Depois, ameaçando-os mais ainda, os soltaram, não tendo achado como os castigar, por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que acontecera (At 4.15-21).

Isso nos mostra que quando a Igreja vive uma forte coesão doutrinária e oferece valores à sociedade, por meio da atuação de seus membros, ela produz um forte impacto no meio da sociedade secularizada:

14  Fazei tudo sem murmurações nem contendas,
15  para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo (Fp 2.14-15).

A ação da Igreja é realizada por pessoas convertidas, em meio àquelas que estão no mundo, por meio das qualidades de seu caráter transformado pela Palavra de Deus. Em sua função educativa ela deve priorizar o ensino dos valores morais e espirituais, na construção do caráter, como meio de encontrar resposta às grandes questões da vida.
A coesão da fé cristã é um forte instrumento de propagação da maneira cristã de ver o mundo. A atuação dos crentes no meio da sociedade é um fator primordial para favorecer a expansão da cosmovisão cristã, pois é dessa forma que o Espírito Santo age nos corações humanos e transforma vidas. E uma atuação ousada, corajosa e firme da Igreja, certamente contribui para vivermos em um mundo melhor.

C – A importância da ação social da comunidade cristã

A pobreza no mundo, em que a distribuição da riqueza é tão desigual, continua a crescer. São vítimas da guerra ou da falta de recursos naturais que morrem a cada dia desidratados, desnutridos e doentes. O excesso de uns poderia acabar com a fome de outros. E os poderes políticos poderiam fazer melhor redistribuição, mas existe aí uma enorme falta de interesse. A responsabilidade da Igreja neste campo é muito grande.
A perda da autonomia pelo ser humano, especialmente os idosos, torna-os vulneráveis, diminuídos na sua capacidade de auto-suficiência. Em uma sociedade em que a pirâmide etária aponta para o envelhecimento da população, esta é uma área de grande carência e um campo muito fértil. A prestação de cuidados e transmissão de afeto pode fazer sorrir outra vez lábios cerrados pela tristeza, e fazer nascer um raio de esperança em um coração embotado pela desilusão de uma velhice que se sonhava diferente e mais feliz. Também aqui a Igreja tem muitas ações a fazer. Movida pela compaixão, basta tomar a iniciativa de cuidar daqueles que se encontrem na situação de dependência, pela idade ou pela doença.
Na sociedade deste século os sofrimentos emocionais e espirituais crescem em virtude das expectativas não alcançadas e do ritmo alucinante da vida. E há pessoas que sofrem. Sofrem por relacionamentos quebrados, por não se encontrarem, não se realizarem, não serem tão bem sucedidas nem tão competitivas. Precisam da Igreja. É também essa a vocação da Igreja. Oferecer um ouvido que ouve ao aflito, que não julga, mas que ajuda a encontrar caminhos para fora do sofrimento.
Também temos contemplado pelo mundo afora grandes desastres naturais, em que famílias inteiras perdem em um instante, o que demoraram a vida inteira para construir, isso sem contar com inúmeras vidas que são ceifadas de uma forma tão trágica. Precisam de consolo, e quem tem uma fonte de consolo mais abundante que a Igreja? E ainda temos as guerras que tem promovido milhares de refugiados. Eles precisam de socorro e a Igreja não pode fechar seus olhos para estas situações.
Para exercer a sua influência no mundo a Igreja não pode desprezar sua função social. Esta função vai muito além das suas reuniões internas e de seus cultos realizados. Ela não pode ir atrás dos perdidos preocupando-se apenas com as suas almas, precisa também voltar-se para as suas necessidades.
Ao longo da História, o cristianismo sempre teve uma participação efetiva em favor do equilíbrio social e da causa daqueles que estão em vulnerabilidade social. Igrejas em todo o mundo sempre foram e ainda são protagonistas de grandes movimentos em favor da paz, da saúde, da educação, da erradicação da fome, da mortalidade infantil e de todo tipo de justiça social, cumprindo com seu dever mencionado por Tiago:

27  A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo (Tg 1.27).

A Igreja não pode exercer a função de opressora. As cruzadas foi um movimento militar patrocinado pela Igreja e provocou o assassinato de inúmeras pessoas em guerras sangrentas. Até hoje, depois de séculos, a Igreja é odiada por muitos em função desse movimento opressor. Não é este o papel da Igreja neste mundo. Ela jamais deve trilhar por este caminho. A Igreja deve ser capaz de unir as suas forças para uma atuação eficaz diante das demandas sociais como antigamente fez na História:

1  Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia;
2  porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade.
3  Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários,
4  pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos (2 Co 8.1-4).
25  Mas, agora, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos.
26  Porque aprouve à Macedônia e à Acaia levantar uma coleta em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém.
27  Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores; porque, se os gentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem também servi-los com bens materiais (Rm 15.25-27).

Paulo cita o exemplo de Igrejas extremamente pobres, mas mesmo assim não se isentaram da oportunidade de ajudar socialmente aos necessitados. Essa capacidade de mobilização social é um elemento fortalecedor e propagador dos valores da nossa fé e de nossas crenças fundamentais.
Hospitais, escolas, casas de recuperação, ações missionárias de auxílio social, cestas básicas nas igrejas locais, atendimento às populações de rua, são apenas alguns exemplos de como os cristãos podem participar da sociedade de um modo eficiente.
Hoje temos muitos pobres conosco e muita oportunidade para abençoar alguns. Ministrar aos pobres é algo inerente à própria essência da Igreja, porque é inerente ao amor e o amor é a razão de ser da Igreja. E não é absolutamente necessário sair do nosso país, cidade, bairro, vila ou aldeia para encontrar desfavorecidos. Basta apenas abrir os olhos e o coração!
Esta função da Igreja é muito importante para ela demonstrar o seu amor pelas pessoas. Possivelmente, se a sociedade tivesse uma atuação social mais determinante da Igreja, teríamos uma sociedade mais justa, com mais respeito, menos violência e mais justiça.

03 – A FUNÇÃO RESTAURADORA DA IGREJA

Em meio a um mundo desvirtuado pelas suas cosmovisões, a Igreja desempenha o papel fundamental de ser um ambiente de realinhamento da mentalidade teocêntrica, a que tem Deus como ponto central. Esse realinhamento deve acontecer em dois níveis: o da conversão e o da restauração dos desviados.

A – A restauração dos novos convertidos

Quando uma pessoa se converte, ela passa de uma estrutura afetada pela Queda, estrutura esta centralizada no egocentrismo do homem, para um modelo realinhado com o fato de a nossa existência ser centrada em Deus. Essa mudança de mente é o sentido mais exato da ideia de conversão.
Enquanto a Igreja anuncia a salvação em sua função proclamadora do Evangelho, o Espírito Santo opera a salvação do pecador, por meio do poder da Palavra de Deus, realizando nele aquilo que é chamado na Bíblia de novo nascimento:

3  A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (Jo 3.3).

Quando isso acontece, ao mesmo tempo em que se inicia um processo educativo com o novo convertido, está se estabelecendo um processo de restauração da Criação, a partir da redenção manifesta de mais um filho de Deus:

22  Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.
23  E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo (Rm 8.22-23).

A Igreja exerce o papel de alimentar o coração do convertido para que ele cumpra a tarefa de viver para Deus a partir da transformação de sua vida.

B – A restauração dos crentes desviados

Infelizmente muitos abandonam o caminho da fé. São as sementes que caíram na beira da estrada, ou no meio das pedras ou cresceram em meio aos espinhos. São as pessoas que não suportaram a pressão do joio e cederam. E o outro lado da função restauradora da Igreja tem a ver com o retorno à fé daqueles que se desviaram do caminho.
Em geral, as pessoas que se desviam do caminho sofrem também uma mudança em sua visão de mundo, pois retornam ao padrão egocêntrico e abandonam o padrão teocêntrico. Essa mudança de visão sufoca a consciência implantada neles pelo Espírito Santo e endurece ainda mais o coração humano desviado. E este fator nos remete às palavras do autor de Hebreus que disse:

4  É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo,
5  e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,
6  e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia (Hb 6.4-6).

E Pedro também falou duramente a este respeito:

20  Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro.
21  Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado.
22  Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal (2 Pd 2.20-22).

Realmente não é fácil restaurar um desviado da fé, mas não é impossível, conforme nos ensina a parábola do filho pródigo. Somente o poder da Palavra de Deus pode trazê-lo de volta à consciência da fé. É uma função que precisa ser exercida de uma forma diferenciada:

24  Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente,
25  disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade,
26  mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade (2 Tm 2.24-26).

A restauração dos desviados é uma função a ser exercida com muito amor e paciência, pois ela é um processo de recuperação da visão teocêntrica da vida. A parábola do filho pródigo ilustra muito bem essa recuperação de visão de mundo.

Conclusão

O papel da Igreja e da família é de grande importância no estabelecimento, consolidação e expansão da cosmovisão cristã. Caso a Igreja se exima dessa responsabilidade certamente colherá frutos amargos e viverá em uma sociedade ainda mais injusta e distanciada de Deus.
A Igreja não tem apenas opinião, mas tem sólidas convicções. Ela não pode ficar calada quando assiste ao desmoronar do valor do indivíduo em si mesmo, pela perca dos seus valores e pela falta de conhecer o Criador. A Igreja tem de elevar a sua voz e gritar de todas as formas a sua mensagem, que é uma mensagem de esperança e de amor que a sociedade tanto necessita.
Precisamos de igrejas e famílias cada vez mais apegadas a visão teocêntrica do mundo. Com sabedoria, conhecimento e discernimento precisamos encarar a realidade secularizante que nos cerca, a fim de nos prepararmos cada vez mais para os desafios de influenciar o mundo com o conhecimento de Deus. Que Deus lhe abençoe! Amém!

Luiz Lobianco
luizlobianco@hotmail.com

Bibliografia:
Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Sociedade Bíblica do Brasil.